A cena é clássica. E costuma se repetir em várias famílias. Na infância, os filhos se aproximam do pai. É ele quem leva a molecada para se divertir no parque, que faz as brincadeiras dentro de casa, que se une aos pequenos na hora da bagunça... Enfim, é ele quem assume o lado mais divertido da criação. Para meninos e meninas com até 10 anos de idade, geralmente o pai é tido como um verdadeiro herói, capaz de realizar todos os desejos e superar as dificuldades com um passe de mágica.
Essa figura do pai-herói é muito comum, e o psicólogo Aguinaldo Gomes, da Universidade Estadual Paulista, garante que ela não traz nenhum entrave para o desenvolvimento infantil. "O problema é quando essa cumplicidade atrapalha o estabelecimento uma relação de autoridade com os filhos", diz.
E como é possível perceber quando os limites estão sendo ultrapassados? Acima de tudo, é importante ter bem claro que, apesar de toda a amizade que se constrói com os filhos, o pai jamais pode abrir mão de sua identidade. Se o moleque quer jogar videogame até tarde da noite e tem aula na manhã seguinte, a melhor solução não é sentar ao lado dele no sofá e assumir um dos controles para tornar o jogo mais emocionante, mas dizer "não" com firmeza, para que a criança perceba que, mesmo diante de um herói, nem tudo é perfeito.
Qual o pai que um dia não pensou desta maneira? "Ah! Seria tão bom se existisse um manual completo que ensinasse e orientasse como ser pai em todas as etapas de vida dos filhos!
Imaginemos, então, o título: "Manual de Instruções para ser Pai ". Na capa, estaria escrito: "leia antes do nascimento do seu filho e consulte sempre que tiver dúvidas".
A seguir, viriam os itens ligados à descrição das características, funções básicas, como manejar e como lidar com possíveis problemas, suas causas prováveis e soluções. Enfim , um manual que desse cobertura a todas as dúvidas do pai.
Todos sabem que cabe à paternidade uma parcela da responsabilidade em cuidar, educar, proteger e preparar seus filhos para o ingresso na sociedade. Quanto mais dedicação, maiores e melhores serão os resultados no que diz respeito às condições de bem estar físico, mental e social dos novos cidadãos que estão se formando. Não há outro jeito. Trata-se de um processo relacional de crescimento e amadurecimento ímpar na vida. O pai irá aprender a ser pai com seus filhos e os filhos irão aprender a ser filhos com seu pai. Uma relação de ida e volta, um e outros ensinando e aprendendo.
Na verdade, podemos dizer que todos os pais, com certeza, buscam inspiração na geração anterior mais próxima, que é a dos seus próprios pais. Este é o modelo que está mais à mão; afinal de contas, o novo pai já vivenciou como filho a experiência.
No entanto, aí se encontra um perigo: a experiência que ele viveu foi "como filho", perceberam? Ele não poderá esquecer-se de que passou uma geração, mudou o contexto, mudaram as pessoas e que a situação atual é novíssima e diferente. Se esquecer, poderá cair na tendência de repetir tudo igualzinho ao que seu pai fez, ou então, voltar-se para o outro extremo de maneira radical. O grande e difícil desafio é atualizar esse modelo para os dias atuais e incrementá-lo com uma boa dose de criatividade.
Encontramos um exemplo a esse respeito ao observarmos três gerações passadas nos últimos cinqüenta anos, considerando, é claro, as mudanças ocorridas na sociedade.
O pai dos anos 50 / 60 era quem provia o sustento da família, "dava as ordens" e era pouco afetivo (isto ficava para a mãe, que era a cuidadora da família). A geração que se formou nesse tempo, em função de sua experiências, criticou este modelo de pai. Sentiu-se reprimida.
O pai dos anos 70 / 80, com a melhor das intenções, educou seus filhos de maneira diferente, mas não deixou de estar no outro extremo: expressou afetividade pelos filhos, deu-lhes amor incondicional e liberdade total para exercitarem suas emoções, limites e potencialidades. A geração que se formou nesse tempo sentiu dificuldades para se adaptar às leis e normas da sociedade.
E agora, a geração de pais dos anos 90 / 2000 encontra-se diante de uma nova demanda, que é enfrentar o grande desafio de ser objetivo e claro, ao ditar regras e condutas e saber dar limites. E mais ainda: de aproveitar o que há de melhor nesses dois modelos das gerações passadas de seu pai e avô, entendendo que a frustração, a raiva, o ódio, a disputa e a privação fazem parte do aprendizado de uma criança, tanto quanto o amor, a proteção, o carinho, a confiança e o afeto que ele deve receber dos pais.
Ana Silvia Teixeira e Vera Risi
Terapeutas de Família